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“É preciso garantir que meninos e meninas tenham, de fato, seus direitos respeitados”
0 —“Em termos de política pública de proteção à infância, para que consiga de fato proteger os meninos e meninas, precisamos reagir com ações políticas, éticas, humanas, que têm de acontecer no dia a dia.”
Notícias da Saúde Infantil – Como a escola se insere na tomada de consciência da sociedade a respeito da problemática e no enfrentamento da violência? Elisandra Felix Vieira – Uma escola com gestão democrática possibilita intersecções e abre portas para comunidade e as famílias na escola. Este movimento amplia as condições de acesso e cuidado das crianças. Além disso, é preciso seguir um currículo inclusivo, olhar para as diferenças, proporcionar uma educação integral. Veja, se eu não olho para o sujeito integral, eu não consigo me aproximar dele e apoiá-lo em suas necessidades, tanto educacionais quanto sociais. À medida que estabeleço diálogo com outras redes de proteção, tenho mais elementos para entender o que acontece na vida dele ou dela. A educação nos privilegia nesse aspecto, pois a criança está todo dia na escola, desse modo, temos maiores condições de ampliar as possibilidades de qualificar o trabalho de proteção, instrumentalizando os indivíduos a entenderem que estão vivendo situações violentas. Muitos meninos e meninas são salvos por reconhecerem sua condição de risco e materializarem seu sofrimento na escola. Ajudar os estudantes neste processo de autoconhecimento e de cuidado é uma ação pedagógica e reforça a ideia de que a escola é o lugar para realizar essa prática. Notícias da Saúde Infantil – O relatório realizado pela Fundação José Luiz Egydio Setúbal, com base na “Pesquisa nacional sobre atitudes e percepções sobre maus-tratos e violência contra crianças e adolescentes no Brasil”, relata que existe um espectro amplo do que se consideram práticas educativas e há discordância sobre quando os comportamentos passam a ser abusivos e se tornam violentos. Poderia comentar sobre essas constatações? Elisandra Felix Vieira – Vale entender que existe um olhar subjetivo para a questão, pois o que é violência para mim pode não ser para você. Existem práticas que são consideradas educativas, mas que, na realidade, são violências. Muitos documentos ou leis, por exemplo o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) oferecem elementos para entendermos as diferentes expressões da violência. Uma frase que se escuta com frequência é “Melhor estar trabalhando do que roubando”, ou seja, há quem entenda o trabalho infantil como natural, em especial para crianças em condições sociais desfavoráveis. Desconstruir esses pensamentos é complexo, mas temos parâmetros legais para isso. No entanto, existem as ditas verdades morais, que exigem que lidemos com crenças e valores arcaicos de nossa sociedade. Lembro que, quando eu era coordenadora do Naapa, fui chamada em uma unidade educacional para resolver qual banheiro uma criança trans iria usar. A escola encontrou desafios em dialogar e descontruir alguns posicionamentos conservadores, foi árduo o caminho para autorizar o uso do banheiro das meninas para esta estudante. Após vários diálogos e conversas, conseguimos garantir as condições de acesso e trânsito da estudante em todos os espaços, sem restrições. Este exemplo aponta que cabe a nós tais mediações. É nossa responsabilidade discutir temas como sexualidade, identidade de gênero e de raça na escola e construir estratégias de acesso para todos e todas. Notícias da Saúde Infantil – No Brasil, nos últimos dez anos, foram registrados no Sistema de Agravos de Notificação (Sinan) mais de 800 mil casos de violência contra vítimas de até 14 anos, incluindo violência sexual, violência física, violência psicológica e negligência. Quais são as principais estratégias às quais a escola pode recorrer para diminuir esse número de casos? Elisandra Felix Vieira – É um conjunto de ações. Em primeiro lugar, a identificação: saber identificar se é violência ou não. Em seguida, acionar a rede de proteção e oferecer todos os cuidados necessários à vítima. Se não houver um fluxo de comunicação intersetorial e não for possível fazer as mediações no território, contando com uma gestão democrática na escola, a proteção fica mais difícil. Por mais de dez anos eu estudo esse tema e entendo que a nossa dificuldade está em materializar as ações; é preciso fazer boas costuras para que elas aconteçam intersetorialmente. Notícias da Saúde Infantil – Qual é o maior desafio na atualidade para a prevenção da violência na infância? Elisandra Felix Vieira – Em termos de política pública de proteção à infância, precisamos avançar nesta pauta ampliando práticas humanizadas e mais respeitosas na escola. Nunca deixei de estar na ponta, no chão da escola, pois eu milito nesse lugar, onde me identifico e reconheço os desafios vivenciados por ela. Se ampliarmos nossos olhares para os desafios presentes no contexto escolar, mais possibilidades de sucesso podemos encontrar. Então entender quais são os marcadores das desigualdades sociais não é uma discussão isolada ou acadêmica, é uma discussão nossa, necessária. Todo terapeuta ou médico que olha para além do clínico faz diferença na vida e na educação do estudante. 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