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“O futuro da vacinação está também na inteligência artificial e no uso de dados“
0 —"Houve um desmonte do complexo econômico-industrial da saúde, o que prejudicou o abastecimento de vacinas"
Notícias da Saúde Infantil — Observando a queda vacinal, quanto tempo será necessário para voltarmos aos níveis anteriores à crise? Dr. Eder Gatti — O problema começou antes da pandemia, em 2016. Embora tenhamos avançado, ainda enfrentamos desafios como a circulação de sarampo em vários países, inclusive desenvolvidos. Em 2019, o Brasil teve um surto de sarampo, mas estamos nos aproximando dos 90% de cobertura para a tríplice viral. Ainda assim, a ameaça de novos surtos, devido à circulação da doença em outras partes do mundo, nos obriga a continuar melhorando. Notícias da Saúde Infantil — Além da pandemia, houve outros fatores que contribuíram para a queda das coberturas vacinais? Dr. Eder Gatti — Sim. Além da pandemia, houve um desmonte do complexo econômico-industrial da saúde, o que prejudicou o abastecimento de vacinas. Tivemos que reconstruir as relações interfederativas, necessárias para que estados e municípios colaborem com o programa de vacinação. O processo de recuperação envolve investimentos em atenção primária, recomposição de estoques e melhorias na Rede de Frio. O governo federal tem dado um apoio essencial. A ministra da Saúde, Nísia Trindade, e o presidente Lula estão fortemente comprometidos com a política de vacinação, garantindo que ela volte a ser uma prioridade nacional. Esse apoio facilita os recursos e o planejamento necessários para as ações do PNI. Notícias da Saúde Infantil — A desinformação foi um fator relevante nessa queda? Dr. Eder Gatti — Sem dúvida. A desinformação, amplificada durante a pandemia, causou muita hesitação vacinal. Além disso, figuras políticas disseminaram informações incorretas, aumentando a desconfiança da população. Incorporar novas vacinas é ainda mais desafiador, pois qualquer novidade é alvo de resistência. Antigamente, isso não acontecia na mesma escala. Hoje, a comunicação é diferente, e as fake news circulam rapidamente, chegando às pessoas sem que elas busquem. Por isso, o Ministério da Saúde tem um comitê para monitorar e combater a desinformação em colaboração com outros órgãos, como o Ministério da Justiça. Notícias da Saúde Infantil — O Programa Nacional de Imunizações (PNI) completou 50 anos recentemente. Qual o impacto desse programa na saúde infantil? Dr. Eder Gatti — O PNI foi um divisor de águas na saúde da população em geral. A introdução de vacinas como a antipneumocócica e a meningocócica C transformou o cenário de doenças graves no Brasil. No Hospital Emílio Ribas, onde atuei, era comum termos vários casos de meningite antes dessas vacinas. Após a introdução da meningocócica C, em 2010, o impacto foi imediato, e em poucos anos os casos diminuíram drasticamente. Hoje, doenças como sarampo e poliomielite, que eram comuns, são raras graças ao PNI. Nosso último caso de paralisia infantil foi em 1989, por exemplo."Precisamos estar mais próximos da população para garantir o cuidado contínuo"
Notícias da Saúde Infantil — O senhor mencionou o uso de microplanejamento para melhorar o acesso à vacinação. Pode nos contar mais sobre essa estratégia? Dr. Eder Gatti — O microplanejamento permite que cada município avalie suas necessidades e desenvolva estratégias personalizadas para aumentar a cobertura vacinal. O Ministério da Saúde capacitou estados e municípios para implementar essa metodologia, que inclui ações como vacinação em locais fora das unidades de saúde. Temos visto bons resultados em municípios que aplicaram corretamente o microplanejamento. Ao contrário das campanhas centralizadas e verticais, que nem sempre geram resultados uniformes, essa abordagem mais descentralizada e específica tem funcionado melhor. Notícias da Saúde Infantil — Como a digitalização dos dados pode ajudar na gestão do PNI? Dr. Eder Gatti — A integração dos dados de vacinação com a Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS) foi um avanço significativo. Agora, todas as informações de imunização estão registradas e cruzadas com outras bases de dados do Ministério da Saúde. Isso permite que os municípios saibam exatamente quem está com doses faltantes e possam tomar medidas mais diretas para melhorar a cobertura. Além disso, essa integração facilita o monitoramento de surtos e doenças, permitindo uma resposta rápida e eficiente. Com a RNDS, conseguimos criar uma base de dados nominal que também é usada para vigilância e tomada de decisões em políticas públicas. Notícias da Saúde Infantil — Quais são as perspectivas futuras para o PNI e a saúde infantil no Brasil com o uso dessas ferramentas tecnológicas? Dr. Eder Gatti — O futuro da vacinação está na inteligência artificial e no uso de dados. Com a integração dos sistemas e o cruzamento dessas informações com outras bases do governo, podemos criar estratégias de vacinação mais direcionadas e eficientes. A inteligência artificial ajudará a identificar as áreas com fragilidades e nos permitirá tomar decisões mais rápidas e precisas. Já conseguimos saber, por exemplo, quais municípios e faixas etárias estão com baixa cobertura vacinal e podemos direcionar nossas ações para esses grupos. Isso é essencial para garantir que toda a população tenha acesso às vacinas indicadas e, assim, melhorar a saúde infantil no Brasil. Notícias da Saúde Infantil — Para finalizar, o que o senhor acredita ser necessário nos próximos anos para garantir um salto de qualidade na saúde infantil? Dr. Eder Gatti — O PNI é uma parte importante, mas a chave para melhorar a saúde infantil no Brasil está na ampliação da atenção primária. Precisamos garantir que mais municípios tenham cobertura completa para proporcionar um acompanhamento contínuo das crianças, desde o crescimento até a nutrição. Com esses investimentos, conseguiremos alcançar melhores resultados a longo prazo. A ampliação da atenção primária e a recomposição de nossas capacidades logísticas são essenciais para garantir uma saúde infantil de qualidade no país. Vale ressaltar que tudo o que estamos fazendo agora no PNI só está sendo possível devido ao forte compromisso do atual governo com a vacinação. Por Rede Galápagos Leia mais Intervenções personalizadas no autismo “É preciso garantir que meninos e meninas tenham, de fato, seus direitos respeitados” Avanços no tratamento intensivo infantil Presente e futuro da inteligência artificial para a saúde infantil Histórias que moldaram a pediatria e a nutrição Emergência climática, o desafio de todos Simpósio destacou palestras sobre choque séptico, monitorização neurológica e a história da UTI pediátrica no Brasil Aprendizado, atualização e troca de conhecimento em pediatria Desafios e inovações no tratamento das doenças das vias aéreas Biológicos revolucionam o tratamento da asma grave Cuidado humanizado com foco na criança e sua família UTI pediátrica: inovação para enfrentar desafios Com carinho, conforto e conversa, programa muda vida de pacientes com questões sensoriais Cuidados por todos os lados A mudança climática no radar dos profissionais de saúde infantil Como fica a saúde das crianças diante da emergência climática? ECMO em situações críticas de tratamento infantil Milhões de crianças são salvas pela ECMO todos os anos 7º Congresso Sabará-PENSI terá programação especial para residentes de pediatria Espaço Urbano e Saúde — Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo O meio ambiente e o comportamento nas cidades são desafios para a pediatria As mudanças climáticas e o futuro de seus filhos